Ensaio do crítico de arte e historiador
Jõao J. Spinelli
Arte e Ciência – Hemácias
Uma reinterpretação plástica de Helena Kavaliunas
Arte e ciência, ciência e arte sempre caminharam paralelamente em toda a história da humanidade, culminando com Leonardo da Vinci, um artista/cientista.
A arte não teria alcançado o estágio atual sem a contribuição desse artista pesquisador, inovador. A reação de Leonardo da Vinci, perante a improvisação e o empirismo na arte, pode ser evidenciada em muitos outros momentos da historiografia das artes plásticas.
Os neo-impressionistas reinterpretaram, no último quartel do século XIX, a cor retínica e o espaço ótico por intermédio das leis da fisiologia da visão, segundo as pesquisas científicas de Chevreuil. Assim, a cor – em pequenas pinceladas - pontilhisticamente (dividida em tom e sub-tom) foi incorporada à obra de Georges Seurat e Paul Signac, dois dos mais destacados pintores daquela época. Segundo Abraham Moles, mais recentemente na segunda metade do século XX, "todo o desenvolvimento da estética repousa sobre uma doutrina de base recente, a Teoria Informacional. Esta é especialmente adaptada a sistemas construídos: Optical-Art, Arte Cinética, Arte Computacional".
Para essa exposição as obras foram executadas com materiais tecnológicos de última geração (polietileno tereftalato, polipropileno). Seguindo os grandes mestres, Helena Kavaliunas reinterpreta plasticamente imagens microscópicas de hematias. Ao integrar a tecnologia/documentação microscópica das hemácias, a artista recria, em pleno século XXI, o diálogo arte/ciência, cristalizado desde a antiguidade, na Grécia pela palavra Tecné, que em grego significa, ao mesmo tempo, arte e técnica, pesquisa, criação e execução formal.
Independente de uma mera apologia desta técnica de documentação de hematias, a artista reafirma, esteticamente, seu percurso artístico, em busca de si mesma, interna/externamente. Uma poética exteriorizada por imagens digigráficas, extraídas e fotografadas via polaroid, diretamente do microscópio.
Redimensionadas compositivamente por intermédio do computador, recriam plasticamente, as hematias previamente fotografadas, dando-lhes uma nova leitura. Uma interpretação exterior do próprio interior fisico da artista. Desta forma, parafraseando Abraham Moles, Helena Kavaliunas acredita que "as máquinas de informação influenciam cada vez mais, a arte". Nada mais natural que os progressos verificados no campo da computacional levassem os artistas contemporâneos a realizar esboços de criação científicas. Por isso as "fisicalidades" visuais de Helena Kavaliunas revelam não apenas a magia subjetiva, relativa ao corpo, mas, em especial, a magia concretizada, coloristicamente, pela criação artística, por isso a artista realiza uma pesquisa, utilizando as suas próprias hemácias como tema principal.
Digitalizadas computacionalmente estas obras concretizam uma nova forma de fazer arte contemporânea."



